By Ariel Coelho
Ao lançarmos um olhar antropológico sobre a história do uso da voz humana para finalidades artísticas, verificamos que primeiro surgem as estéticas vocais, com todos os seus nuances e matizes (por exemplo, o jeito de cantar das lavadeiras enquanto executavam o seu trabalho ao ar livre; dos escravos que expressavam toda a sua dor e indignação quando se juntavam na senzala; dos cantores que animavam as festividades ou mesmo reuniões nos antigos palácios imperiais e/ou aristocráticos pelo mundo a fora; dos índios, etc.). E somente depois é que surgem as técnicas vocais, como tentativas de se manter, aperfeiçoar e mesmo perpetuar as estéticas vocais subjacentes.
Não obstante, se verifica ainda que, na medida em os povos vão se misturando (migração, socialização, globalização, etc.), ocorre uma verdadeira miscigenação estético-vocal, desdobrando num alargamento técnico-vocal dos cantores, de um modo geral; e isso acaba resultando no surgimento de novas estéticas vocais. Trata-se de um movimento antropológico cíclico, cuja estética vocal constitui-se sempre como início-fim e fim-início.
Como um bom exemplo desse fenômeno, temos o teatro musical, cujas raízes incluem a opereta, a ópera cômica, o cabaret, a pantomina, o vaudeville e o burlesco, todas formas teatrais popularizadas no século XIX. Pois bem, em pesquisa recente (tese de doutorado, 2009), Ana Cristina Pereira Sacramento, sobre a orientação do Prof. Dr. António Gabriel Castro Correia Salgado, da Universidade de Aveiro (Portugal), demonstrou de modo brilhante uma prática corriqueira entre cantores(as) do gênero: o crossover técnico-vocal. Ou seja, para a execução das obras, os(as) cantores(as) acabam se utilizando – ainda que às vezes, de modo deveras intuitivo – tanto de técnicas vocais específicas do canto erudito (técnica belcantista, por exemplo), quanto àquelas desenvolvidas mais especificamente no e para o teatro musical (belting, por exemplo), cuja sonoridade, dito a grosso modo, enfileira-se mais à estética do canto popular. E acrescentaríamos, pois, que é exatamente pela elasticidade estética do canto popular que a prática do crossover técnico-vocal no âmbito do teatro musical se tornou possível.
O mesmo ocorre na Técnica Vocal Aplicada ao Rock: dada a elasticidade da estética vocal rocker (enquanto subgênero do canto popular), a prática do crossover técnico-vocal é lugar comum entre/para os rock singers, sendo que as técnicas vocais do teatro musical ocupam um importante espaço dessa/nessa prática. Daí a nossa especial atenção ao assunto aqui no blog.
Contudo, quem irá tratar do assunto – com mais propriedade, diga-se de passagem – será o Prof. Alírio Netto, numa série de posts, cujo objetivo é instrumentalizar os interessados em teatro musical acerca do processo seletivo para um musical, desde os passos fundamentais para a realização de uma audição, passando pela escolha da música, das personagens, até aquelas dicas básicas que na “hora do vamos ver” podem fazer toda a diferença. É isso aí! Até o próximo post.

0 Respostas para “O Crossover Técnico-Vocal – Ensaios de Antropologia Vocal”