By Ariel Coelho
Comecemos este texto chamando a atenção para o fato de que já se foi o tempo em que ensinar técnica vocal era simplesmente passar adiante experiências técnico-vocais pessoais. Ou pelo menos, já deveria ter passado este tempo, tendo em vista que já se tem conhecimentos científicos seguros e avançados em voz profissional (inclusive sobre os tão almejados drives), sem contar com os riscos que se corre com tal prática irresponsável! Ocorre que, infelizmente, a educação vocal baseada apenas no empirismo ainda é uma prática deveras corriqueira na/da pedagogia técnico-vocal brasileira, onde o grau de adequação das técnicas ensinadas está estritamente relacionado ao perfil vocal do aluno e, não obstante, o grau de eficácia didático-pedagógica do cantor/professor está estritamente relacionado ao seu nível proprioceptivo.
Nesse sentido, pretendemos com este pequeno texto instigar a comunidade vocal rocker brasileira à compreensão técnico-científica da voz, ainda que de modo introdutório. Mas para tal empresa, será preciso demarcarmos antes a própria constituição histórica da racionalidade científica enquanto conhecimento antropológico surgido nos séculos XVI e XVII; para somente depois adentrarmos nas chamadas Ciências da Voz (Otorrinolaringologia, Fonoaudiologia, Anátomo-Fisiologia Vocal, Patologia Vocal, Física Acústica, etc.) e suas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem em Técnica Vocal Aplicada ao Rock. Comecemos, pois, por demarcar o lugar-comum donde nossas reflexões posteriores se sustentarão, qual seja, o fenômeno da ciência. Senão, vejamos.
Historicamente, com a materialidade se lhe impondo exatamente pela sua constante dificuldade-por-ser-vencida, o homem “viu-se” diante da necessidade de aprimorar o seu modo de estar no mundo. Não obstante, “viu” no conhecimento racional do mundo o modo pelo qual poderia transformá-lo em favor de seu bem estar. Ocorre que a ciência não foi o único modo que encontrou de produzir conhecimentos acerca do mundo, como veremos mais adiante. Mas o fato é que através da ciência, o homem pôde, pela primeira vez na história da humanidade, “descobrir” as leis fundamentais que regiam os fenômenos da natureza e “melhorar”, conseqüentemente, sua relação com o mundo. Portanto, a ciência não é senão um fenômeno humano historicamente constituído para mediar a relação do homem com as coisas do mundo. Dito de outro modo, trata-se de um esforço humano em estudar/compreender os fenômenos com os quais se depara constantemente e que implicam direta ou indiretamente a sua existência, a partir dos elementos constitutivos desses próprios fenômenos, no intuito de se poder esclarecê-los e alterá-los em benefício do seu bem estar.
Pois bem. Essa é uma redução deveras grosseira da história do surgimento da ciência. Mas, por ora, serve para nossos propósitos. Prossigamos. Bem, como vimos anteriormente, a ciência “vem ao mundo” pelo homem como um instrumento de esclarecimento e alteração dos fenômenos da natureza. Ou melhormente, surge para estudar a gênese, a constituição e evolução dos fenômenos – ou se quiser, as condições de possibilidade de um fenômeno ocorrer de um jeito e não de outro – , mediando a relação das pessoas no seu cotidiano com a realidade, possibilitando mais clareza na antecipação de suas ações na relação com o mundo – e, por isso mesmo, ela participa influente e ativamente na construção da racionalidade e cultura humana. Portanto, ciência não é senão um modo de dominar a estrutura dos fenômenos de forma que possamos alterá-los de modo seguro, isto é, com previsão e predição de resultados.
E, assim sendo, nem precisamos apelar para explicações e justificativas mirabolantes relativamente à importância da ciência para a vida humana. E é nesse sentido que a clara demarcação e definição do que seja o próprio fenômeno ciência e suas condições básicas, constituídos na historicidade dos homens, torna-se assaz de primacial relevância e importância.
Até o próximo post!
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