By Ariel Coelho
Joe Lynn Turner é sem sombra de dúvida uma das mais importantes vozes do rock mundial. Não é à toa, pois, que em 2002 foi recrutado por ninguém menos do que Glenn Hughes para juntos “arrepiarem” num projeto que acabou sendo batizado simplesmente de Hughes Turner Project (HTP).
Além do HTP, sua trajetória musical inclui Rainbow, Fandango, Yngwie Malmsteen, Deep Purple, Mother’s Army, Brazen Abbot, Michael Men Project, Cem Köksal, TNT, seus trabalhos solos e alguns projetos de estúdio.
Mas vale registrar também que, assim como a maioria de nós rock singers, JLT já fez muitos covers antes de firmar efetivamente sua identidade vocal (refiro-me à década que antecede sua entrada no Rainbow). E o objetivo deste texto é exatamente oferecer à comunidade técnico-vocal brasileira uma ferramenta teórica para a compreensão do processo de desenvolvimento e potencialização daquilo que poderíamos chamar de papel de cantor, cuja identidade vocal não é senão uma conseqüência. Para tanto, valer-me-ei da Teoria dos Papéis de Jacob Levy Moreno e da própria trajetória vocal de JLT. Mas vai aí um alerta: não se trata aqui de realizar uma discussão sobre se o cantor já nasceu cantor (tese inatista) ou se ele aprendeu a ser cantor (tese empirista). Trata-se, sim, de realizarmos uma reflexão sobre o desencadeamento do processo de aprendizagem técnica em voz, que resultará eminentemente em um melhor desempenho do já citado papel de cantor.
Vejamos. Em tese, um cantor, através da aquisição de conhecimentos e práticas específicas (técnica vocal e/ou canto) e, de acordo com o seu grau de liberdade e espontaneidade (referimo-nos aqui ao campo das questões de ordem mais psicológica mesmo), passará por três fases distintas no processo de desenvolvimento do seu papel de cantor: (1) Role-Taking (“pegando o papel”): tomada do papel ou adoção do papel, que consiste simplesmente em imitá-lo, a partir dos modelos disponíveis; (2) Role-Playing (“jogando o papel”): é o jogar o papel, explorando simbolicamente suas possibilidades de representação; e (3) Role-Creating (“criando o papel”): é o desempenho do papel de forma espontânea e criativa.
Isso colocado, não é de surpreender o fato de se encontrar com tanta freqüência cantores(as) que imitam seus ídolos (ou que pelo menos tentam) sem saber, via de regra, o que estão fazendo efetivamente com a sua voz, do ponto de vista técnico. E, segundo o nosso modelo teórico, isto ocorre porque estes(as) cantores(as) ainda se encontram na primeira fase do processo de desenvolvimento do seu papel de cantor, qual seja, o de estar “pegando o papel” que, com efeito, não “lhes pertence”. Relativamente à trajetória vocal de JLT, tal fase foi vivenciada sobretudo no período que vai de 1970 até aproximadamente 1976/77, época em que fazia basicamente covers (dentre outras bandas estava o próprio Deep Purple).
Ocorre que no processo de desempenhar tal papel (o dos ídolos), a ação do(a) cantor(a) permite profundos insights a respeito do significado do papel assumido (“sacadas técnico-vocais”, percepções cinestésicas específicas, compreensões técnico-vocais mais apuradas, etc.). E, na medida em que progride no desempenho de tal papel, o cantor(a) passa a jogar o papel, isto é, passa a explorar simbolicamente algumas possibilidades de representação, extrapolando, ainda que timidamente, os limites da pura imitação. Bem, esta fase está bem representada na trajetória vocal de JLT sobretudo quando ele formou o Fandango (1977/1980), cujas composições se enveredavam para o típico Rock’n’Roll, mas com uma inclinação um pouco mais romântica. Digamos, pois, que se tratava mesmo de uma fase de importantes laboratórios técnico-vocais para JLT, no sentido de rumar ao amadurecimento da sua identidade vocal.
E, na medida em que o(a) cantor(a) progride na ação de jogar o papel, vai ganhando forças (condições técnicas e psicológicas) para desempenhar efetivamente o papel de cantor de forma mais espontânea e criativa (criando o papel). É aqui que o nosso protagonista, tendo firmado de vez sua identidade vocal, ingressa no Rainbow (1980). Daí em diante, sua trajetória vocal se resume ao processo contínuo de maturação vocal, cujos maravilhosos resultados nós bem conhecemos.
Do que foi exposto até aqui, conclui-se, portanto, que um aspecto sempre a ser levado em consideração no processo de desenvolvimento do papel de cantor é a questão da maturidade vocal, que ao final das contas é um processo de “libertação” dos papéis idealizados (vale dizer, papéis estes que impedem sistematicamente a ação mais espontânea do/a cantor/a; nesse sentido, a função da Técnica Vocal é fomentar o processo de maturação vocal para que o papel de cantor possa ser desempenhado em toda sua plenitude técnico-estética). E que, não obstante, a ação do(a) cantor(a) no domínio do como se (“cante tal música como se fosse tal cantor”) é fundamental para a maturação vocal, uma vez que permite o reconhecimento de tais papéis idealizados e a posterior “libertação” destes. É isso aí! Até o próximo post!
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Observações Importantes:
* Segundo a Teoria dos Papéis de J. L. Moreno, muitas vezes a transição de uma fase para outra é imensamente dificultada por vários fatores internos e/ou externos. Entre os internos (os que comumente chamamos simplesmente de psicológicos), poderiam se destacar a baixa auto-estima, falta de auto-confiança, de auto-disciplina, entre outros. Nos externos, temos basicamente as influências culturais, sociais e econômicas. Nesse ponto caberia um estudo aprofundado desses fatores que influenciam na transição das fases. Mas por ora, nos atemos neste texto apenas à descrição das fases do desenvolvimento do papel de cantor.
* A maturidade vocal resulta das diversas experiências a que se submete o(a) cantor(a) desde o momento em que se lança no mundo como tal: geralmente começa experimentando empiricamente sua voz, obtendo tanto resultados positivos quanto negativos; depois, por conseqüência e/ou necessidade, aprende a usá-la de forma mais consciente e adequada, no sentido de preservá-la para usufruto indeterminado; nesse ínterim, fortalece e condiciona tecnicamente sua musculatura laríngea, sua musculatura costo-abdominal e fono-articulatória, o que dá uma vasta gama de possibilidades de uso da voz; não obstante, enriquece seu repertório e lapida seu gosto musical, o que lhe traz maior segurança e auto-confiança; por fim, reconhece seus limites vocais, suas deficiências e geralmente trabalha no sentido de melhorá-las.
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